29 de Julho de 2009

paisagem nº1

Existia uma vontade de alguma coisa. Povoa-me essa sensação concreta desde um tempo sem memória. Sou um ser antigo, dizias. Mas eu escrevo com frases curtas. Não consigo expressar melhor essa inquietação. Que quando encontra um pedaço de paz, logo ele se esvai. Ao virar da esquina. Depois da primeira árvore.
Ontem estive com eles. Entre risos disfarçamos a vontade de partir. De sair daqui para fora. De viajar pelo mundo. Uso o plural sem saber porque. Talvez fosse apenas eu.

Vou tentar outra vez. Ontem caminhei junto ao mar. Ao fundo, as sereias cantavam frutos maduros e eu escutava como se fosse a voz dos deuses o mistério dessa língua estranha que aprendi em criança ensinado por uma medusa.Recordo.
Todos os sonhos eram viagens de barco a um universo que existe para lá do sol posto.
Estava cansado de caminhar e sentei-me pequenino num rochedo húmido do mar que o vento trazia lá do fundo.É claro.Como faço para atravessar este mar para o outro lado?Pensei.
Pergunto-lhes?

31 de Maio de 2009

10.

vem como uma vaga sobre mim, lenta
cobre com o teu manto o canto das rolas
e eu, a força do girassol amarrado à terra
fundo buscando água procuro reconhecer-te.

poderosa montanha que ilumina o rasto flamejante da borboleta
que enche o ceu limpido de estrelas
mais inspiradoras que a íris do tempo completo
--
solo não domesticável, cheio de antigas rochas
onde habitam os seres que procuram
incessantemente aumentar a liberdade.

[vem como uma onda de calor e dilui-me]

3 de Abril de 2009

9

Hoje que é quase Lua Cheia
uivo as flores da Primavera
(enquanto escreves os poemas
que gostava de escrever sobre ti)
Danço com a sombra dum sobreiro antigo
e conto, uma a uma, as estrelas brancas.

Hoje é o tempo de não dizer nada
de um sabor antigo rodeado de ciprestes
(enquanto a terra gira vinte voltas
escuto o ar passando nos fios de telefone)
Danço nas tardes quentes disperso
e morro no tempo de não te ter.

15 de Março de 2009

8

era uma aventura solitária - um gesto
com vontade de ser - um pouco de paz
os dias alongavam-se - as flores abriam
o sol aceso na linha do plano em frente
refugio-me entre letras e números
no cálculo acertado - escondi a fome
de vida - ponto por ponto - desenho
a fórmula : recta - abraço.

14 de Fevereiro de 2009

7

Derrama as tuas palavras sobre o lado-Mãe
o redondo do seu calor quando nutrindo,
seus seios como a órbita celeste, davam vida.
Derrama, junto dela, onde queres estar.
Onde depositas beijos perpétuos, com a cabeça
repousada, entre eles, esqueces o tempo.
Redondos como oo Infinito

26 de Janeiro de 2009

6

era um espaço que se abriu
dos braços que se encheram dentro
directo ao coração como a seta afiada
partindo do arco esticado, o reencontro

foi num dia azul e inesperado
na margem mais alta do rio, entre montanhas
não se ouviam aves nem insectos
apenas o som das gotas do orvalho

era um gesto difuso, claro
encerrado paredes meias, entre arvores
caminhei descalço na erva húmida

7 de Dezembro de 2008

5

Numa onda acesa de sal e líquido tempo
arrastando algas como tubos dançantes
cresce a minha volta, envolvendo-me
os teus (a)braços nus descobrem o mundo:
redondo como a cabeça de um polvo gigante
pequeno no jogo de berlindes do universo e
texturado de montanhas e tentáculos antigos.


{um dia saberei pairar sobre as arvores}

.

11 de Novembro de 2008

4

.
no abandono das palavras
onde cada dia é um dia
e cada acento pousado nu
é uma entoação a mais
acordas numa Terra inóspita
o vento agreste como um estalo
e uma vírgula numa pausa entre versos
dizes pelo mar dentro, um sorriso como um esgar
estas farta das palavras, deste tempo
pousas o livro aberto sobre a mesa.

.

30 de Outubro de 2008

3


Atravesso o verde claro
Choro uma dor que é do tempo
Em partes iguais
Abro as asas e rolo sobre o Mar
As ondas suaves são o meu ninho
e danço longe de mim
encontro o teu calor na distância
das nossas mãos sem se tocarem
na liberdade feliz e cheia de vida
Não sei dizer o que nunca encontrei
e descendo, apenas pressentia.


27 de Outubro de 2008

2


o sexo é uma fronteira sem limites
passaporte entre a terra e o cosmos
quero ser argila em sua roda de oleiro
explorar as linhas que se distendem
como crepúsculos paralelos
entre pontos cardeais
o santo
graal
de
va
gar
abre o sorriso
o horizonte dos acontecimentos
recomeça a crescer de novo o sol levanta
dos teus seios nas minhas mãos uma escultura
um simbolo fálico, homem ou mulher, não importa
determina a essência firme da alegria de sermos juntos
hoje, debaixo do sol, em cima de uma cama de areia fresca.

23 de Outubro de 2008

1


os montes enrugados no olhar sentado sobre os ramos secos
onde caminhamos por esquecidos sulcos, lado a lado
uma voz que sabe a medronhos cai das arvores madura
rubra de sentimento e de textura e de sabor e de grainhas.
a memória de um tempo antigo, desabrochando em plena força
vulcões dispersos: ouço-te respirar na minha pele
o teu perfume em mim dentro um prazer fora do espaço
e eu vi-te até desapareceres, um braço estendido longe.

esqueço-me do futuro e é assim que quero estar
fruir cada momento em cada momento, mais nada

agora é escutar os passos numa espiral de fumo
é a árvore estendida a tocar a atmosfera
é um olhar solto a rebolar na encosta pura.
agora é saber desaparecer na floresta profunda
parar o pensamento e simplesmente ser.